Santana é um reconhecido jornalista de Porto Alegre - RS e eu na época queria ter mandado para ele este texto, o que nunca ocorreu...
Santana, a população gaúcha tem que ter bem claro o fato de que não é a pobreza fato determinante desta violência que percorre, a passos largos, nosso país, mas sim um dos fatores que influenciam ou que leva algumas pessoas a delinqüir, assim como as drogas, usos, costumes, os valores morais, éticos, religiosos, culturais... O somatório de todos estes fatores é que determinam a delinqüência e nunca a pobreza como fato isolado. Eu e tu sabemos disso, mas muitas pessoas não sabem ou não entendem, o que faz com que a população fique alienada da realidade e, mais do que isto, distancia a mesma da solução de problemas sociais. No momento em que a população entender os problemas que a aflige poderá exigir as soluções adequadas de médio e longo prazo. Ocorre que algumas emissoras de rádio e TV que são meios formadores de opinião, muitas vezes, levam a população a crer que apenas pobres estão fadados a cometer crimes, principalmente quando emitem opiniões infundadas como no caso do índio Pataxó: "como podem pessoas que tem tudo, que são ricas, cometerem crimes desta crueldade".
Em relação ao fato ocorrido no Rio de Janeiro já se sabe que o autor do fato bárbaro foi vítima de homicídio por estrangulamento e não de arma de fogo praticado pela polícia carioca. Não estou aqui para condenar ou absolver ninguém já que em crimes hediondos como tu bem sabes apenas o Juiz de Direito ou o Júri, nos crimes dolosos contra a vida, é que tem competência para tanto.
O que me preocupa é a execução sumária com que pessoas estão sendo vítimas em homicídios bárbaros praticados por parte da polícia no país. Acabei de ver na TV Cultura um estudo realizado pela Comissão de Direitos Humanos do Brasil onde revelou que no primeiro trimestre deste ano 248 pessoas foram vítimas de homicídio praticado pela polícia, instituição que tem a função de proteger o cidadão. O que prova que este fato bárbaro vem ocorrendo há muito tempo (iniciou na ditadura).
Santana, muitas pessoas inclusive juristas analisam estes fatos passionalmente, dizendo que devem morrer mesmo, que mereciam... Vamos supor que isto seja verdadeiro, então nós teríamos mais 247 homicídios com vítimas culpadas teoricamente certo?Errado, porque nos outros 247 homicídios praticados por policiais as pessoas desconhecem os fatos ocorridos, quando, quem, onde, como, porque..., portanto, podem ocorrer fatos onde a polícia de agredida passa a agressora, como já ocorreu no caso do policial "rambo" quando matou um inocente, atirando pelas costas, em chacinas ocorridas no RJ e SP, sem falar naqueles fatos onde o suposto culpado está amparado por uma das excludentes como, por exemplo, a legítima defesa. Nestes casos nós teríamos vítimas culpadas e também inocentes. Continuando este raciocínio vamos supor que 10% dos 248 homicídios foram praticados contra pessoas inocentes, então teríamos 24,8 seres humanos inocentes executados em apenas três meses. Então vamos supor, hipoteticamente que este número de execuções não se alterasse em um ano, aí teríamos 99 (noventa e nove) pessoas inocentes sendo mortas por ano, sendo que a experiência nos mostra que a tendência é crescer na proporção das desigualdades sociais. Em 10 (dez) anos teríamos aproximadamente 1000 (na verdade 992) vítimas.
O que me impressiona Santana não são as supostas 992 vítimas inocentes e sim as 9920 (quase 10 mil) vítimas. Agora, se você pensar que até o momento eu falei em hipóteses baseadas num dado real, já imaginou se aqueles 10% forem, na verdade 20% ou 30% de mortes de inocentes??
O que eu quero demonstrar com tudo isso é que as pessoas devem sim se indignar com crimes hediondos, mas não podem de forma alguma legitimar ou justificar tal atitude da polícia. Aqui vale o sentimento de Ivan Macedo, coronel da PM, presidente do Clube dos oficiais da Polícia Militar do Ceará e tio de Geísa Firmo Gonçalves, morta na segunda-feira no seqüestro a um ônibus no Rio, sobre a morte do seqüestrador: "O erro foi ainda maior porque não adiantava cometer outro crime, desta vez contra o bandido, porque isso não ia trazer de volta ou amenizar o mal feito a ela." (Folha de São Paulo, 15/06/2000).
Para concluir quero lamentar a constatação de que estamos não só vivendo numa guerra civil, como também nos acostumando com ela.
Com humildade peço que as pessoas reflitam sobre estas linhas e espero que esta mensagem alcance todos os gaúchos e não gaúchos, homens e mulheres, negros e brancos, ricos e pobres, gremistas e colorados, do Rio Grande e do Brasil.
Porto Alegre 16 de junho de 2000
Mario Malina