por Mario Malina
Mito, razão e filosofia são termos intimamente ligados. O Mito e a razão como definição de filosofia foram considerados antagônicos por autores como Burnet. Nesse sentido, a filosofia surgia como a explicação do mundo pela razão. Contudo, autores como Conford consideravam que na razão da filosofia estava contido o mito, mostrando que os fundamentos de muitos mitos estavam presentes nos primeiros filósofos. Se entendermos desta forma, razão filosófica e mito podem ser considerados e comparados a duas faces de uma mesma moeda. Daí surgem algumas questões para a nossa realidade: se considerarmos o mito importante para a explicação da sociedade por que ele foi se perdendo ao longo do tempo? Como podemos recuperá-lo? O objetivo desse artigo não é dar respostas a essas perguntas, mas apontar e discutir essas questões para compreendermos melhor a sociedade na qual vivemos.
A palavra mito vem do grego mythos e significa fábula ou narrativa. O jornalismo está intrinsecamente vinculado à idéia de mito e razão. O jornalismo utiliza a razão e a narrativa para criação das suas reportagens. E o jornalista quando faz uma reportagem conta uma história por meio da narrativa (mito), de forma racional. Dessa forma, podemos dizer que o jornalista é um filosofo do cotidiano.
Esse filósofo jornalista narra os fatos de forma racional, mas será que não nos tornamos racionais demais? Afinal sabemos que o racionalismo não tem condições de explicar tudo. Nossas questões espirituais são muito complexas e nem tudo pode ser explicado por palavras. Contudo, temos a mania de explicar tudo pela razão até mesmo o que é inexplicável. Daí a importância do mito. Segundo Marilena Chauí (2002, p. 36), “o mito conserva a realidade social dando-lhe um instrumento imaginário para conviver com suas contradições e dificuldades”.[1]
Joseph Campbell no livro “O poder do mito” destaca o caos dos jornais, preocupados com o imediatismo do cotidiano. Mas por trás de tantas histórias há também as suas explicações. Daí a importância da filosofia e do mito. Talvez os jornalistas pudessem não apenas contar histórias, mas nos ajudar a desvendar o que está por trás delas. Explicar o mito que foi criado pelas diversas tribos de jovens justamente pela falta de mito. Campbell explica:
“Eles os fabricam por sua própria conta. Por isso é que temos grafites por toda a cidade. Esses adolescentes têm suas próprias gangues, suas próprias iniciações, sua própria moralidade. Estão fazendo o melhor que podem. Mas são perigosos, porque suas leis não são as mesmas da cidade. Eles não foram iniciados na nossa sociedade.”[2]
O mito, por outro lado, pode ter um viés negativo, pode servir para esconder a realidade e impedir transformações importantes para uma sociedade. Um mito que justifica e nega a realidade por ele criada faz com que a sociedade não enxergue a verdade que a rodeia e não tem como analisá-la de forma correta. Dessa forma, a sociedade diagnostica a doença como sendo uma, quando na realidade é outra e o paciente não é curado, mas apenas anestesiado pelos remédios. Chauí explica esse fenômeno:
“Muitos indagarão como o mito da não-violência brasileira pode persistir sob o impacto da violência real, cotidiana, conhecida de todos e que, nos últimos tempos, é também ampliada por sua divulgação e difusão pelos meios de comunicação de massa. Ora, é justamente no modo de interpretação da violência que o mito encontra meios para conservar-se.”[3]
Daí a grande importância da imprensa que, muitas vezes, repete idéias e incentiva ou desmotiva ações que lhe interessam para sedimentar mitos e manter o status quo. Por isso, essa imprensa pode ser benéfica ou maléfica para a população. Daí a importância de uma diversidade de meios de comunicação que representem os vários segmentos da sociedade.
Atualmente, o imediatismo das notícias pode ficar por conta da Internet devido à sua velocidade de publicação que é maior que dos jornais. E os jornais podem cumprir um novo papel, o de investigar o cotidiano, o que se esconde nas histórias das pessoas. Procurar entender o espírito das pessoas através dos dramas pessoais.
Portanto, o jornalismo tem condições de entender os fatos através da razão e do mito sem que isso signifique dar a opinião sobre fatos, mas interpretá-los ou mostrar seus desdobramentos para que o leitor tenha condições de interpretá-los. Afinal seria mais honesto com os próprios jornalistas e com a sociedade se enterrássemos a pretensa “isenção jornalística” em nome da interpretação dos fatos. Dessa forma, o jornalismo, com uma visão mais ampla da sociedade, contribuiria para sua classe profissional e para o melhor entendimento das pessoas em relação ao mundo.
OBRAS CONSULTADAS
1 CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
2 CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. 15ª. ed. São Paulo: Palas Athena, 1997.
3 PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2007.
4 CHAUÍ, Marilena. Contra a violência. Ciranda internacional de informação independente, abril 2007.
[1] Marilena Chauí, Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1, 2002, p. 36.
[2]Joseph Campbell, O poder do mito, 1997.
[3] Marilena Chauí, Contra a violência, abr. 2007.


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