terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Tropa de elite ou de intolerância?

Li diversas críticas a respeito do filme, depois fui assisti-lo e refleti a respeito dele. Acredito que a imprensa criou uma falsa polêmica a respeito do tema. Muitos criticam o filme porque ele justifica a tortura para alcançar o objetivo principal, ou seja, chegar até o traficante. Dessa forma, podemos dizer que vale o ditado de que os fins justificam os meios, ainda que eles sejam ilícitos, como a tortura por exemplo.

Estamos voltando à Antigüidade romana onde havia o olho por olho, dente por dente. Se alguém mata um policial, a corporação se encarrega de vingar-se e matar aquele que cometeu tal ato. A população, diante do caos e da impunidade, se sente legitimada a fazer justiça com as próprias mãos.

A população está revoltada e cansada de tanta violência, e com razão. Está cansada de traficantes sem escrúpulos e com a corrupção de parte da polícia que tudo pode, que tudo justifica. Estamos radicalizando os diversos núcleos que há na sociedade. Perdemos o controle e ainda temos uma política de controle social, assim, a equação só pode ser mortes a níveis de guerra civil.

O filme tem uma particularidade, que não se trata de mostrar o lado da polícia, mas de uma polícia “especializada”, o BOPE (tropa de elite). Essa polícia é intolerante com seus próprios integrantes e, por conseqüência, externa isso para a sociedade onde atua, ou seja, é intolerante com a sociedade. E nesse lugar onde moramos, há policiais corruptos, traficantes, consumidores de drogas ilícitas e pessoas comuns. Nenhuma delas está isolada, todas elas interagindo, e não há como separar o tráfico e a comunidade onde vive, pois, há uma ligação de cumplicidade, de proteção e ajuda financeira aos mais necessitados.

Na realidade o próprio protagonista, Capitão Nascimento (Wagner Moura), sabe que o sistema não funciona, que é uma guerra sem fim e quer sair da Tropa. O diretor mostra o filme sob a ótica do policial da tropa de elite, exclusivamente. Esse talvez seja o grande demérito do filme, pois, não há apenas o lado do policial, ou o lado do traficante, ou ainda, o lado do consumidor, mas sobretudo das pessoas inocentes que acabam pagando pela violência, com balas perdidas e tortura cotidiana.

Outro ponto a se questionar é porque o governo cria uma elite de policiais intolerantes, que naturalmente irá entrar em choque com uma polícia corrupta, criando um conflito dentro da própria policia. Quando o mais lógico e de bom senso seria substituir, gradualmente, uma polícia ineficiente por outra mais eficiente e, junto a isso, uma política de urbanização de favelas e desenvolvimento social.

Talvez devêssemos começar a refletir mais, debater mais sobre o tema da violência. Para mim esse é o grande valor do filme. Afinal que tipo de sociedade nós estamos criando?

Nenhum comentário: