Em solidariedade aos estudantes da USP, encaminho mensagem que me foi enviada pela colega Gabriela Rocha, da Faculdade Cásper Líbero:
Relato do prof. dr. Paulo Ortellado, da USP, enviado ao meio-dia de hoje, 10/6: Prezados colegas,
Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professoreshaviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. Amanifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica.Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram empasseata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia docampus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação,eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, aessa altura, já se anunciavam.
Os estudantes e funcionárioschegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiaismilitares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordemusuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentosmais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cercade 1200 pessoas nesta manifestação. Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciavaassembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio daHistória/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatosque a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários eque se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foisuspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas quedão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estavaacontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia umamultidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e atropa de choque avançando e lançando bombas de concusão(falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaçose machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiucorrendo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléiahavia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamentoe entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entradadas rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenasde nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás– lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professorAlessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machadoe da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontospelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros.
Oclima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviua explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois deuma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequenogrupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido derecuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grandetumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado desceraté o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada).
Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descidoaté a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Aduspse recuperando. Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos deagressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foipresa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantesque haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de umaprofessora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos doisestudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegassubiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram aentrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar enenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outradelegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoashaviam sido presas.
A informação incompleta que recebo até agoraé que dois funcion� �rios do Sintusp foram presos – mas escuteirelatos de primeira pessoa de que haveria mais presos. A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História eestou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonhoda nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dosriscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira) ,autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão dareitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não semobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra odiálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não seimais. Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quemjulgarem que é conveniente.
Cordialmente, Prof. Dr. Pablo Ortella da Escola de Artes, Ciências e Humanidades Universidade de São Paulo
quarta-feira, 10 de junho de 2009
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